segunda-feira, 19 de abril de 2010

DILÚVIO


É noite enluarada, o céu está prateado,
E a minha pena sempre vigilante
Logo se inquieta, e as palavras bordando
O branco do papel, dão-lhe cor vibrante.

A pena segue como um rio, serpeante...
Em cada traço vejo seu corpo ondulado.
Percorro seus montes, aclives excitantes...
Perco-me na sua geografia, fico aloucado.

Nessa indigestão mental de sentimentos
Ardendo de desejos e loucos delírios,
Divido com a lua e a poesia, os lamentos!

E sob a luz do luar, e das rosas, o eflúvio
Derramei os meus versos, portentos?
Não sei! Sei que vieram como um dilúvio!

 


Diná Fernandes - João Pessoa-PB

quinta-feira, 18 de março de 2010

PAIXÃO ARDENTE



Quando se aproximas de mim,
Meu corpo queima de desejo,
Sinto o fogo do amor
Anseio momentos ousados de prazeres.

Quero ter em tua boca beijos ardentes,
Nas tuas mãos, fortes carícias
No teu suor ansiedade de me ter
E no teu corpo o desejo de me consumir.

Quero viajar nas ondas da paixão
Nos teus braços me banhar de prazer
E por fim satisfazer, esse desejo
Que me queima e me consome.




Poema recitado pela autora Janaína Cavalcante, durante a 28ª reunião da Academia Belojardinense de Letras e Artes, no distrito de Serra do Vento.

terça-feira, 9 de março de 2010

A MULHER DESTE BRASIL !


A mulher deste Brasil
É a flor que floresce
Acorda debaixo deste céu de anil
Vivendo uma aventura, não esquece
Trabalha neste chão varonil
É esta a mulher do meu Brasil.

A mulher deste Brasil
É muito especial
É de personalidade varonil
Seu amor é sem igual.

A mulher deste Brasil
Tem um sonho altaneiro
Se destaca entre mil
Com seu coração brasileiro.


Autor: Hazelpony, 10 anos, poema recitado na 28ª reunião da Academia Belojardinense de Letras e Artes.

VAMOS À LUTA .


Vamos à luta, meu amigo,
Que a ociosidade é a ferrugem.

Vamos ver o que há para fazer

O mais breve possível, o quanto antes.

O combate é agora, suportemos;
A vitória é nossa, esperemos.
Não sejamos receosos de viver,
Que a vida é a chama do amor.

Não tenhamos indolência no agir,

Que a ação é o sal que dá sabor.

Levantemos, comecemos sem demora,

Que cada minuto que passa,

Temos nós menos tempo pra lutar.

Que os passos que damos diariamente

Se movam para a (re)construção.

Que as mãos abertas do mais forte

Não apanhe pedras para arremessar.

Que a casa do artista do viver

Seja o vale, seja a serra, seja o mar.



Raimundo de Oliveira- membro da Academia Belojardinense de Letras

quinta-feira, 4 de março de 2010

Mulher da vida, minha irmã

Mulher da Vida, minha Irmã.
De todos os tempos.
De todos os povos.
De todas as latitudes.
Ela vem do fundo imemorial das idades e
carrega a carga pesada dos mais
torpes sinônimos,
apelidos e apodos:
Mulher da zona,
Mulher da rua,
Mulher perdida,
Mulher à-toa.
Mulher da Vida, minha irmã.
Pisadas, espezinhadas, ameaçadas.
Desprotegidas e exploradas.
Ignoradas da Lei, da Justiça e do Direito.
Necessárias fisiologicamente.
Indestrutíveis.
Sobreviventes.
Possuídas e infamadas sempre por
aqueles que um dia as lançaram na vida.
Marcadas. Contaminadas,
Escorchadas. Discriminadas.
Nenhum direito lhes assiste.
Nenhum estatuto ou norma as protege.
Sobrevivem como erva cativa dos caminhos,
pisadas, maltratadas e renascidas.
Flor sombria, sementeira espinhal
gerada nos viveiros da miséria, da
pobreza e do abandono,
enraizada em todos os quadrantes da Terra.
Um dia, numa cidade longínqua, essa
mulher corria perseguida pelos homens que
a tinham maculado. Aflita, ouvindo o
tropel dos perseguidores e o sibilo das pedras,
ela encontrou-se com a Justiça.
A Justiça estendeu sua destra poderosa e
lançou o repto milenar:
“Aquele que estiver sem pecado
atire a primeira pedra”.
As pedras caíram
e os cobradores deram s costas.
O Justo falou então a palavra de eqüidade:
“Ninguém te condenou, mulher...
nem eu te condeno”.
A Justiça pesou a falta pelo peso
do sacrifício e este excedeu àquela.
Vilipendiada, esmagada.
Possuída e enxovalhada,
ela é a muralha que há milênios detém
as urgências brutais do homem para que
na sociedade possam coexistir a inocência,
a castidade e a virtude.
Na fragilidade de sua carne maculada
esbarra a exigência impiedosa do macho.
Sem cobertura de leis
e sem proteção legal,
ela atravessa a vida ultrajada
e imprescindível, pisoteada, explorada,
nem a sociedade a dispensa
nem lhe reconhece direitos
nem lhe dá proteção.
E quem já alcançou o ideal dessa mulher,
que um homem a tome pela mão,
a levante, e diga: minha companheira.
Mulher da Vida, minha irmã.
No fim dos tempos.
No dia da Grande Justiça
do Grande Juiz.
Serás remida e lavada
de toda condenação.
E o juiz da Grande Justiça
a vestirá de branco em
novo batismo de purificação.
Limpará as máculas de sua vida
humilhada e sacrificada
para que a Família Humana
possa subsistir sempre,
estrutura sólida e indestrutível
da sociedade,
de todos os povos,
de todos os tempos.
Mulher da Vida, minha irmã.

Cora Coralina

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Meu Carnaval é de Cinzas

TEMPO em que sinto-me algo estranho, deslocado,
Pois se vivo o ano todo, a vida toda a sorrir,
Por que haveria, bem agora, de fazer diferente,
Já que contrariar é a regra, quando regra não há?

Feriado em que pareço bem mais sério, calado,
Pois se passo os dias, a cada dia como sendo único,
Por que teria, justo hoje, de ser de outro jeito,
Já que o irreal é o real, quando realidade não há?

Reinado de Momo, Baco tropical sem bagos, nem uvas,
Cercado, de fato, por rainhas e princesas efêmeras,
Cujos pés e passos não param, frenéticos, há horas,
Cobertas de prata, banhadas em suor, desejos e aplausos .

Início do fim de longa hibernação, letargia coletiva,
Marca, na prática, o começo de um ano já não inteiro,
De cumprir-se as promessas esquecidas há dois meses,
Vestidas de branco, regadas a licor, brindes e borbulhas.

Meu Carnaval é de Cinzas, do grito à quarta-feira derradeira,
Meu Ano Novo atrasado, há várias semanas parado, incerto e preguiçoso,
Pois não me basta estar palhaço, rei ou otimista só por três dias,
Quero rir, reinar e viver todos os dias, ser eu mesmo e mais ninguém!



Milford Maia

domingo, 31 de janeiro de 2010

Nós, escravocratas

Há exatos cem anos, saía da vida para a história um dos maiores brasileiros de todos os tempos: o pernambucano Joaquim Nabuco. Político que ousou pensar, intelectual que não se omitiu em agir, pensador e ativista com causa, principal artífice da abolição do regime escravocrata no Brasil.
Apesar da vitória conquistada, Joaquim Nabuco reconhecia: “Acabar com a escravidão não basta. É preciso acabar com a obra da escravidão”, como lembrou na semana passada Marcos Vinicios Vilaça, em solenidade na Academia Brasileira de Letras.
Mas a obra da escravidão continua viva, sob a forma da exclusão social: pobres, especialmente negros, sem terra, sem emprego, sem casa, sem água, sem esgoto, muitos ainda sem comida; sobretudo sem acesso à educação de qualidade.
Ainda que não aceitemos vender, aprisionar e condenar seres humanos ao trabalho forçado pela escravidão – mesmo quando o trabalho escravo permanece em diversas partes do território brasileiro –, por falta de qualificação, condenamos milhões ao desemprego ou trabalho humilhante.
Em 1888, libertamos 800 mil escravos, jogando-os na miséria. Em 2010, negamos alfabetização a 14 milhões de adultos, negamos Ensino Médio a 2/3 dos jovens. De 1888 até nossos dias, dezenas de milhões morreram adultos sem saber ler.
Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra da escravidão se mantém e continuamos escravocratas.
Somos escravocratas ao deixarmos que a escola seja tão diferenciada, conforme a renda da família de uma criança, quanto eram diferenciadas as vidas na Casa Grande ou na Senzala.
Somos escravocratas porque, até hoje, não fizemos a distribuição do conhecimento: instrumento decisivo para a liberdade nos dias atuais.
Somos escravocratas porque todos nós, que estudamos, escrevemos, lemos e obtemos empregos graças aos diplomas, beneficiamo-nos da exclusão dos que não estudaram. Como antes, os brasileiros livres se beneficiavam do trabalho dos escravos.
Somos escravocratas ao jogarmos, sobre os analfabetos, a culpa por não saberem ler, em vez de assumirmos nossa própria culpa pelas decisões tomadas ao longo de décadas. Privilegiamos investimentos econômicos no lugar de escolas e professores.
Somos escravocratas, porque construímos universidades para nossos filhos, mas negamos a mesma chance aos jovens que foram deserdados do Ensino Médio completo com qualidade.
Somos escravocratas de um novo tipo: a negação da educação é parte da obra deixada pelos séculos de escravidão.
A exclusão da educação substituiu o sequestro na África, o transporte até o Brasil, a prisão e o trabalho forçado. Somos escravocratas que não pagamos para ter escravos: nossa escravidão ficou mais barata e o dinheiro para comprar os escravos pode ser usado em benefício dos novos escravocratas. Como na escravidão, o trabalho braçal fica reservado para os novos escravos: os sem educação.
Negamo-nos a eliminar a obra da escravidão.
Somos escravocratas porque ainda achamos naturais as novas formas de escravidão; e nossos intelectuais e economistas comemoram minúscula distribuição de renda, como antes os senhores se vangloriavam da melhoria na alimentação de seus escravos, nos anos de alta no preço do açúcar.
Continuamos escravocratas, comemorando gestos parciais. Antes, com a proibição do tráfico, a lei do ventre livre, a alforria dos sexagenários. Agora, com o bolsa família, o voto do analfabeto ou a aposentadoria rural. Medidas generosas, para inglês ver e sem a ousadia da abolição plena.
Somos escravocratas porque, como no século XIX, não percebemos a estupidez de não abolirmos a escravidão. Ficamos na mesquinhez dos nossos interesses imediatos negando fazer a revolução educacional que poderia completar a quase-abolição de 1888.
Não ousamos romper as amarras que envergonham e impedem nosso salto para uma sociedade civilizada, como, por 350 anos, a escravidão nos envergonhava e amarrava nosso avanço.
Cem anos depois da morte de Joaquim Nabuco, a obra criada pela escravidão continua, porque continuamos escravocratas. E ao continuarmos escravocratas, não libertamos os escravos condenados à falta de educação.

Cristovam Buarque, ex-reitor da UnB, é senador pelo DF.